Museu Rodin e o encantamento anunciado

Fugit Amor, minha escultura favorita

Sabe o que eu sempre sugiro? Vá ao Rodin, em vez de ir em tal museu famoso. Lógico que dou este conselho, geralmente, quando a pessoa já conhece os museus principais, hors concours*, aqueles que temos que visitar, pois fazem parte das principais atrações da cidade.

O Museu Rodin é um encanto e meu museu favorito por aqui (portanto, preparem-se porque não vou ser imparcial, haha!) e, há 10 anos, logo que cheguei em Paris - nem sabia quase nada sobre arte – mergulhei de cabeça nesse lugar. Sim, porque além da mansão, onde ficam diversas das obras, há o jardim! Ah... O jardim! O Jardim é um passeio por si só, a parte e um dos lugares mais românticos do quartier

Naquela época, descobri a escultura da minha vida – reparem como sou exagerada. Fiquei hipnotizada e disse que aquilo me representava; a mim e a minha história de amor. Pra vocês terem ideia, a obra se chama Fugit Amor e, ali, era como eu via o amor sempre se esvaindo, escorrendo entre as minhas mãos. No final do post, explico sobre a escultura, Paolo e Francesca.

O museu foi inaugurado em 1919 e as mais de 300 obras expostas ali foram doadas por ele mesmo ao Estado Francês. As obras de Camille foram doadas por seu irmão, Paul Claudel, a pedido de Rodin, já que ele sempre quis fazer uma sala só pras obras dela.  

O Hôtel Particulier onde o museu está instalado se chama Hôtel Biron e fica pertinho de Invalides – eu já comentei pelo site que, em Paris, as mansões urbanas antigas são chamadas de hotel, né? A mansão foi construída em 1732 e já possuiu muitos proprietários e inquilinos, incluindo a embaixada Russa, até chegar a vez de Rodin, em 1911. Foi aí que ele instalou seu atelier e suas obras até o momento em que ele ofereceu uma “permutinha” básica ao estado francês, o então proprietário: ele doaria todas as suas obras se ali fosse construído um museu. Le voilà. 

 

Apesar de ser um museu pequeno, as obras são de um valor tão impressionante que vale a pena dedicar um tempo pra admirar os detalhes. Falando em detalhes, eu queria confessar que, na minha opinião, as esculturas são o tipo de arte que mais me impressiona, que mais me faz refletir sobre o talento e trabalho do artista. 

No Rodin, existem diversos estudos e esboços e esculturas pra Porta do Inferno, em diferentes tamanhos. A porta, que é uma escultura grande, é esmiuçada em cada centímetro. As esculturas que fazem parte do projeto final estão espalhadas por lá, como o próprio pensador, as três sombras e o fugit amor. 

O Pensador, criado em 1880, representa Dante, o autor da Divina Comédia, que foi a inspiração da Porta, mas também Chronos, o deus grego dos infernos, ou ainda o criador debruçado sobre sua obra. Pela sua aliança entre calma e força, a obra se tornou um símbolo de esperança e fé no homem e vira uma celebridade mundial. Ela estava posta em frente ao Panthéon, em 1906 e foi transferida ao Rodin em 1022. 

La Porte de l'Enfer levou 27 anos pra ser terminada e Rodin criou mais 200 grupos de esculturas. Em 1917, surgiu a versão definitiva, em bronze. Mas, vocês acreditam que ele morreu antes de ver a obra finalizada? É impressionante. Quando forem ao museu, tentem observar os detalhes e identificar as esculturas expostas. 

A Porta do Inferno, em bronze

No topo da porta, estão as 3 sombras, escultura que, no jardim, está bem em frente à escultura principal, num tamanho muito maior, claro. Estas 3 sombras fazem alusão às almas danadas que anunciam aos que vão entrar no inferno: "Você que entra, abandone todas as esperanças". 

As Três Sombras

O Beijo, obra que eu não poderia deixar de falar por ser uma das mais lindas do mundo, também retrata Paolo e Francesca, personagens da divina comédia que citei lá no início. A obra também fazia parte da Porta do Inferno, mas Rodin se deu conta que ela destoava do significado da Porta e a retirou. Ela se tornou a representação da felicidade :)

O Beijo

Muito importante: se você não quiser visitar o museu, dá pra visitar somente o jardim por um preço mais barato. 

 

Paolo e Francesca

Francesca da Rimini (Francisca da Polenta), foi uma nobre medieval italiana, filha de Guido da Polenta, então governante de Ravena. Ela foi fonte de inspiração de Dante, como eu já disse antes, na Dibida Comédia. 
Francesca era conhecida por sua beleza e a família Polenta estava em guerra contra a família Malatesta, de Rimini. Quando as famílias estavam negociando um acordo de paz, Guido concedeu Francesca em casamento para Giovanni Malatesta (Gianciotto). Porém, Giovanni tinha uma péssima aparência e o corpo deformado. Seu irmão mais novo e belo, Paolo, que representou Gioavanni no casamento por uma procuração. Paolo e Francesca se apaixonaram... 
De acordo com Dante, Francesca e Paolo foram seduzidos pela leitura da história de Lancelote e Guinevere, e se tornaram amantes. Posteriormente, foram surpreendidos e assassinados por Giovanni. Dante utilizou o romance de Lancelot, a fim de caber no âmbito do regime de amor poesia lírica, que emula Francesca no Canto V do Inferno.
O nome "Francesca" se tornou popular entre os aristocratas.


Museu Rodin

 www.musee-rodin.fr

Museu Rodin: 79 rue de Varenne 75007 

Téléphone : 01 44 18 61 10

Métro : Varenne (ligne 13) ou Invalides (ligne 13, ligne 8)
RER : Invalides (ligne C)
Bus : 69, 82, 87, 92
Vélib' : 9 boulevard des Invalides
Stationnement : Boulevard des Invalides

O museu está aberto todos os dias, menos na segunda, de 10 às 17h45. 

 

 

A poesia da rue Crémieux

Um lugar chamado: Notting Hill? Não, não, hahaha! Desde o primeiro momento que vi fotos da Rue Crémieux, eu fiquei louca pra conhecer. Mal sabia que estava bem pertinho da minha casa e que, sim, era em Paris. Como assim? Não era em Portobello Road? Ou mesmo em Burano? :P

Pitoresca como se pode ver, esta rua é somente de pedestres desde os anos 90. São 35 casinhas bem cuidadas e coloridas, distribuídas em uma rua de 140 metros de comprimento por 7,5 de largura. Quando foi reaberta, em 1865, ela foi batizada de avenue Millaud, em homenagem a Moïse Polydore Millaud (1813-1871). Anos, depois, quando foi renomeada, a homenagem foi a Gaston Crémieux, advogado e político, membro do governo provisório de 1848, defensor das causas trabalhistas durante a Comuna de Paris. Ele também tem seu nome dado ao decreto que dá a nacionalidade francesa aos judeus argelianos.

Paraíso dos gatos (tem muitos, hehe) e dos blogueiros – principalmente os de moda, a rue Crémieux está situada no quartier des Quinze-Vingts, que dá nome ao hospital na rue Charenton. A rua liga a rua de Bercy à rua de Lyon, no 12ème arrondissement.

Bem pertinho da Gare de Lyon, seu charme deve muito aos próprios moradores, que repintaram todas as fachadas de cores felizes – só de andar pela rua, já melhoramos o humor. Nos lembra uma colônia no meio da metrópole, ela nos dá certeza que seus moradores amam cultivar as plantas e flores, enquanto os visitantes passam por aí, flanando de encantamento

Ela foi construída seguindo o modelo de cidades obreiras, todas com o planejamento de terem a cozinha no térreo e mais dois andares com 3 cômodos cada. Durante as inundações de 28 e 29 de janeiro de 1910, essa parte da cidade foi muito afetada, tanto que, na casinha de número 8, encontrei uma plaquinha que indicava que o rio chegou a 1,75m por ali.

Num bairro em que falta charme, é encantador encontrar estas surpresas no meio do caminho. Eu fico me repetindo que é simples ser feliz e que essa cidade nos reserva momentos lindos de poesia. <3

 

E tem vídeo mostrando a belezura :)