Biarritz - o meu paraíso francês e um texto descontraído sobre o que fazer

Posso ser clichê algumas vezes na vida? Não consegui pensar em outro título pro paraíso dos surfistas na Europa. Bom, um dos, né? Seria muita pretensão, com tanto mar, escolher apenas uma cidade pra representar o esporte.

Quando vim a Biarritz pela primeira vez, a viagem não foi completamente planejada, como eu contei aqui. Minha mãe vinha a Europa pela primeira vez, eu já estava com a passagem comprada e ela CAIU de um muro e quebrou o pé, alguns dias antes de vir. Veio de cadeira de rodas, haha (hoje, estou rindo, mas deu muito trabalho :P). Consegui pegar umas ondinhas, mas ficava sempre preocupada se ela estava bem, já que até pra ir ao banheiro a Dona Neyla precisava de ajuda.

Foi uma viagem linda, aproveitei a cidade de uma maneira inusitada (eu subi altas ladeiras empurrando a minha mãe, haha) e me apaixonei. Sabia que voltaria em breve (nem foi tão breve assim, mas tanta coisa aconteceu desde aquele momento) e a incluiria nos meus roteiros sempre que fosse possível.

Biarritz fica no sudoeste francês, mas só a 20km de distancia da Espanha. É a capital francesa do País Basco (da pra fazer uma dobradinha ótima com San Sebastian) e já foi “resort” oficial dos nobres – a esposa espanhola, Eugénie, de Napoleão III, fez questão de construir um castelo pras temporadas de férias. A rainha da Inglaterra também era frequentadora assídua. 

Hoje em dia, não mais frequentada pela nobreza, eu diria que Biarritz é a mistura quase perfeita pra mim: praias com ondas incríveis (mas o mar é gelado, por isso o quase perfeita), um mar esverdeado, a educação francesa, os queijos e vinhos e as ruelas que foram se formando sem planejamento, somente em torno da montanha e natureza.

A herança basca é bem forte e podemos encontra-la nos diversos menus e bares de tapas/pintxos espalhados por aqui e na arquitetura tradicional – e muito bem preservada – das casas da região. Por sinal, foi a arquitetura que deslumbrou Victor Hugo e o fez “prever” que seria um grande destino turístico. Como disse no primeiro post, em 2014, não era tão difícil de se prever assim, né não? 

Fizemos muito exercício, corremos até o farol diversas vezes ou, então, corríamos até o finalzinho da Plage de Côte des Basques, quando ela se tornava a muito mais tranquila Marbella. Biarritz é ótima pra andanças e corridinhas, perfeita pro surf e maravilhosa pela gastronomia - nós comemos MUITO bem e tem post dedicado só a isso.

 

O que fazer em Biarritz?


É uma cidade litorânea, então é claro que pegar uma praia está entre as atividades principais. Arriscar uma aula de surf também, né? Existem várias escolinhas nas duas praias principais, que são a Grand Plage, Côte des Basques e a pequenina e sem surf plage du port Vieux. Nos meses de verão, a Grand Plage fica realmente muito lotada, então, se tu buscares mais sossego, é só ir em direção ao Hotel du Palais e ao farol que tem uma mais sossegada, chamada Plage Miramar.

As praias de Biarritz não tem barzinhos, não passa ninguém vendendo nada - um dia eu até me perguntei se era proibido beber na praia porque não tinha ninguém com uma cervejinha. Mas pode, sim. É só se preparar e levar suas coisas pra comer e beber. 

Passear pelo centrinho é uma delícia, tanto perto do mercado municipal quanto já chegando no Port Vieux. Mas, sinceramente, eu fico aqui pensando e falo comigo mesma: era muito bom de comer, dava vontade de ir em diversos restaurantes. 

Como eu disse que focamos no exercício físico por lá, não tinha nenhum problema em ir correndo e/ou andando até o farol. Que vista linda e panorâmica da cidade. 

E no meio da subida, nós acabamos encontrando uns caminhos pelo morro e que não tinha absolutamente ninguém! Um dia, até levamos uma cordinha pra saltar e tentar perder um pouco do jantar do dia anterior :D

caminhos pelo morro: aqui que pulamos corda

Quase chegando no farol :)

Igreja Ortodoxa Russa no caminho

Depois do farol, descemos umas escadas. Conseguimos ver Anglet

Depois do farol, descemos umas escadas. Conseguimos ver Anglet

Rua Port Vieux: muito animada de noite

O Rocher de la Vierge, visto do Port Vieux

O Rocher de la Vierge é uma curiosidade natural e turística da cidade de Biarritz. Fica localizada entre o Port Vieux e o Port des Pecheurs e tem uma estátua da Virgem bem no topo. É um lugar emblemático dos Pyrénées-Atlantiques. Uma passarela metálica – atribuída a Gustav Eiffel – nos permite chegar até o rochedo. Conta-se por aí que ele servia como referência aos pescadores que saíam do porto e que Napoleão III que ordenou que o túnel fosse escavado entre ele. Esta era parte de um projeto pra construir um dique na cidade que nunca foi concluída porque as ondas o destruíam.

Conta-se a lenda que um grupo de baleeiros se perdeu, vítimas de uma tempestade, e só conseguiu voltar ao porto graças a uma luz que vinha do topo do rochedo. Em 1865, a estátua da virgem foi colocada no topo, em homenagens aos baleeiros. Vale a pena visitar e aproveitar as vistas da orla basca.

Num passeio a pé, vale a pena conhecer: o mercado central (Les Halles), onde, como em todos os mercados municipais, tem peixes frescos, produtos típicos da região, carnes, castanhas, ovos, legumes. Eu sempre digo: pra se conhecer bem a gastronomia e/ou cultura de uma região, precisamos visitar o mercado municipal. Como eu também sempre prefiro alugar apartamento, em vez de me hospedar em hoteis, já dá gosto de comprar os produtos fresquinhos pra cozinhar em casa. 

Entre a Grand Plage e o Port Vieux, uma ótima pedida é sentar na Place Saint-Eugénie pra observar as pessoas. Além da igrejinha, a praça tem diversos barzinhos e restaurantes. 

Pra quem gosta de jogo, o Cassino de Biarritz (https://www.casinosbarriere.com/fr/biarritz.html), inaugurado em 1901, é um ponto de referencia na cidade, na frente da praia principal. E pra quem curte jogo, dá pra ir tentar a sorte. 

Por último, o Farol (Phare de Biarritz) de 73 metros de altura construído em 1830. As vistas são um abuso de beleza e ele está erguido exatamente sobre o Cabo de Hainsart, que é a divisa da costa basca e Landes. As fotos abaixo são do site de turismo de Biarritz, já que eu só ia pra lá correndo e não levava a câmera :)

 

 

 

Como ir de trem de Paris a Biarritz

foto: reprodução

Se eu tiver a oportunidade de ir de trem, eu sempre o escolho. Já falei isso por aqui, não é? Não custa repetir porque, muitas vezes, quando alguém lê:

-       duração da viagem de trem: 5 horas
-       duração da viagem de avião: 2 horas

Pensa: “Nossa, mas é muito mais rápido ir de avião. Vou de avião, né?” Não necessariamente.  Pra ir de trem, saímos geralmente do centro da cidade que estamos até o centro da cidade de destino. Fora isso, só precisamos estar uns 20 minutos antes da partida, sem precisar fazer check in e ainda com a possibilidade de levar malas sem custo adicional (neste caso, duas e nosso equipamento de surf) .

Quando viajamos de avião, os aeroportos ficam um pouco mais distantes do centro, temos que chegar bastante tempo antes, pagar por malas adicionais (neste caso, pagaríamos mais pelas pranchas) e uma séries de outras coisas que eu não acho práticas quando voamos – como o desconforto dos assentos e a impossibilidade de dar uma voltinha pra esticar as pernas.

No final das contas, pra mim, além de perder o mesmo tempo de viagem, ainda encontro muito mais praticidade no trem. Pensem nisso na próxima vez que forem escolher um ou outro.

IDTGV

O nosso trem saiu da Gare de Montparnasse, uma estação confortável, pequena e não muito lotada, ainda mais compararmos a outras gares parisienses (como a de l’Est ou du Nord). Rapidinho chegamos ao nosso vagão e voilà.

foto: reprodução

A viagem até Biarritz dura aproximadamente 5 horas e passamos por algumas cidades lindas, como Bordeaux. Por sinal, estou pensando em ficar uma noite na volta e conto tudo por aqui

Dica pra quem viaja de trem: eu contei no snap, na hora da viagem, mas repito aqui. Podemos escolher o sentido em que vamos sentados: se vamos no sentido que o trem viaja ou de costas para o caminho. Eu, agoniada da maneira que não gostaria de ser, não suporto viajar de costas. Se vocês forem agoniados também, não esqueçam de reservar o assento certo. O serviço é gratuito, mas muita gente não sabe ou esquece.

O trem é bem aconchegante e tem toaletes em quase todos os vagões. É bem limpinho – normalmente, né? Não posso me responsabilizar por todos, hehe. Vou mostrar umas fotinhos de como ele é, tiradas do site deles.

foto: reprodução

Chegando em Biarritz, logo na saída da estação, há um ônibus que nos leva ao centro da cidade e custa 2 eurinhos, apenas. A viagem dura uns 15 minutos.

 

 

 

Cézanne e a Provença

Cézanne não precisou se dirigir à Provence sem conhecer. Ele nasceu em Aix-en-Provence. Ficou lá até 1861 quando, incentivado por Émile Zola, foi rumo à Paris, abandonando o curso de direito e em busca do sonho de desenvolver a veia artística.

Em Paris, Cézanne conheceu o impressionismo de Camille Pissarro, da Academia Suíça. A partir daí, Pissarro foi o mentor de Cézanne.

Até a morte do pai de Cézanne, durante duas décadas, ele alternava entre Paris, Aix e Estaque. Quando decidiu viver definitivamente em Aix quando sua obra tornou-se completamente provençal. 

A maior inspiração foi a montanha de Sainte-Victoire, da qual ele pintou diversos quadros.

Photo by Nikolay Dimitrov/iStock / Getty Images

Em Aix-en-Provence, podemos visitar a cidade com os "pés" de Cézanne, passeando pelos lugares que ele costumava frequentar, incluindo uma visita no seu ateliê, que está da mesma maneira e assim podemos ver de perto como criava o gênio do impressionismo.

Pelos passos de Cézanne, existe na calçada essa marca que vocês podem ver abaixo. É possível fazer a rota toda ou escolher alguns pontos de interesse a visitar, como a casa onde ele nasceu e onde ele morreu. Além de poder comer ou tomar algo no café que ele frequentava: Les Deux Garçons, em plena Cours Mirabeau - a avenida mais bonita e importante da cidade.

Pelos passos de Cézanne

O mapa dos passos de Cézanne pode ser pego no escritório de turismo da cidade. Ou então, é possível fazer um tour pago com um guia especializado. 

Office de Tourisme: Les Allées provençales, 300 avenue Giuseppe Verdi, Aix en Provence

 



"J'ai pour moi les vents, les astres et la mer"

Minhas viagens nem sempre são planejadas. Ok, ok, ok! Corrigindo: quando viajo só, minhas viagens dificilmente são planejadas no quesito "meus dias já são todos pré-definidos" ou de lugares que planejo com meses de antecedência. Existem dias que só quero pegar a estrada e ir a qualquer lugar. Isso pode ser por um, dois, três dias ou até um mês inteiro. Com a minha possibilidade de trabalhar só do computador, a facilidade de tornar uma viagem em realidade é muito acessível. 

Com Biarritz foi diferente. Planejei, pensei, sonhei demais, Haha. Eu surfo, né? Então essa cidade estava na listinha há tempos. Sempre quis conhecer a cidadezinha francesa. E as razões eram várias!

Além de ser um surf spot, Biarritz está localizada no sudoeste da França, pertinho da Espanha e ao longo da Costa Basca. Inclusive, a herança basca é fortíssima ali, seja na arquitetura ou mesmo na gastronomia (muitos bares de tapa).

La Grand Plage

É uma antiga vila de pescadores que ficou conhecida pela caça às baleias e tornou-se um grande resort a céu aberto para os franceses e espanhóis. Hoje em dia, é um dos pontos de encontro de surfistas, franceses e turistas que buscam uma une petite ville animada, que anda sendo cada vez mais descoberta pelos turistas. 

Em 1843, mon cher Victor Hugo descobriu o vilarejo e num momento de premonição certeira, disse que a cidade seria muito turística com o passar dos anos. Mas será que seria tão difícil prever? :P

O que acontece é que os planos mudaram pelo imprevisto. Com casa reservada, carro alugado e planos pra subir a Hossegor e até Bordeaux, minha mãe, que viria com a gente, quebrou o pé. Sim, Dona Neyla veio visitar a Europa pela primeira com o pé quebrado, numa cadeira de rodas e muletas pra ajudar.

Dona Neyla aproveitando o meu descanço na subida para uma foto

La Grand Plage no fundo

A cidade é bem adaptada para as pessoas com problemas de mobilidade física, ainda que tenha colinas, morros, subidas e descidas. Maravilha! Conseguimos nos locomover a pé e de cadeira de rodas pelos cantos da cidade e com algum esforço, claro (tive que levar a cadeira de rodas cidade acima), mas tudo só somou no exercício diário pós-surf.

 

Um pouco de história: Une petite ville surfeuse

Em 1957, Peter Viertel e sua esposa, Debora Kerr, chegaram a Biarritz pra rodar um filme. Com eles, trouxeram várias pranchas de surf trazidas diretamente do Havaí. Eles nem imaginavam que fariam nascer uma tradição! E eu agradeço, já que a cultura do surf floresceu.

Além de fuga surfista, Biarritz também é muito conhecida pela talassoterapia. Desde 1970, com a construção de dois grandes centos de talasso, mais de 400 pessoas diariamente vão a cidade em busca de cura para seus problemas de saúde.

A praia mais conhecida da cidade é a Grand Plage. Linda e, claro, lotada, heheh como toda e qualquer praia principal de um centro turístico – e ainda mais em agosto, durante as férias europeias.  Com a cadeira de rodas, não tive outra opção a não ser sentar numa das mesas dos restaurantes da orla. Passamos uma tarde muito agradável observando as pessoas, o surf crowdiado de agosto, a liberdade e tomando um pouco de sol. Foi até fácil encontrar a mesa, mas eu nunca ficaria aí se não fosse pela Neyla: acho bem caro. Em compensação, um lugar no mar...

La Grand Plage e o crowd do surf

Calçadão da Grand Plage no agosto do crowd (glossário no final do texto)

Entretanto, sem sombra de dúvidas, minha praia favorita, seja pro surf ou seja pra relaxar e comer algo, é a plage de la Côte des Basques. Um UAU bem grande pra essa praia extensa, com ondas em série e um dos meus lugares favoritos pra comer na cidade, o Le Surfing (pra saber mais dele, só clicar aqui)

No final do dia com um surf mais ou menos, neste dia.

A praia é repleta de barracas que nos proporcionam o aluguel de pranchas de todos os tamanhos, neoprene e até de SUP se o mar tiver flat, assim como a organização de aulas de surf em grupo ou particulares pra quem quiser aprender. Gente simpática e bacana, bastante espaço na água e o prazer de surfar no oceano Atlântico.

Dia "marromeno" de surf 

Detalhe Côte de Basques

Glossário

Flat: Um mar sem ondas. Bom pra uns, terrível pros surfistas
Crowd: Mar lotaaaaaaaaado de surfistas. Dá até agonia
Neoprene: Aquela roupa feita que os surfistas usam pra se proteger do frio

Esta é uma série de posts sobre Biarritz. Aguardem os próximos! :)