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 Papos Contingentes #1

São 12 horas de voo. E também são mais de 12 projetos atrasados. Cartas não escritas. Artigos pela metade. Pequenas reflexões no bloco de notas do celular. Pensamentos inacabados. 

No trajeto Londres – Rio, ainda tive uma mensagem inesperada, uma ligação por vídeo; ali mesmo no lounge que estava, ligação que há tempos estava pulsando no meu coracao. Reconexões. Ufa!

Sao 12 horas. Por onde comecar? Talvez exatamente numa reflexao. que chegou ha duas semanas, num outro voo… Porem, a caminho de Berlin, rumo a outra conexao. Humana. Real – ainda que o mundo virtual nao seja exatamente o contrario do real. Mas estar perto fisicamente me remete a isso. 

Ha quase 14 anos, uma proposta de trabalho me fez trocar um voo da morte. Um voo que caiu. Eu nao contei a quase ninguem que mudaria o voo… Era de Belem para o Rio, do Rio a Paris, onde morava. Foram dois meses de felicidade, festa, familia; em belem. Aproveitando, tambem, um novo amor. Sabe aquele tipo de paixao avassaladora? Era. Tambem foi destrutiva – mas nao me matou.

Numa quinta-feira, recebi um e-mail do meu antigo chefe dizendo: temos uma oferta de emprego pra ti, finalemnte. Abriu uma vaga! – e eu achando que iria a Paris continuar a busca de emprego, em meio a crise econimica de 2008. O email me fez saber que eu ja chegaria com minha equipe antiga.

Felicidade e celebracao. Claro, eu tinha apenas 25 anos e com meus antigos chefes, em Paris, me querendo na equipe, em meio a uma crise. Foi ai que meu pai disse: voce aproveitou bastante como todo mundo. Seu voo e’ domingo… Ja que voce so comeca a trabalhar na sexta, vamos adiar o voo ate quinta? Mas nao conte pra ninguem. Vamos aproveitar esses dias juntos e voce com seu namorado tambem. 

  • Pai, mas sao 300 dolares pra mudar. Mudar o voo so por 4 dias a mais? 
  • Mude. Quando voce acha que vamos nos ver de novo? Voce pode nao ter ferias tao cedo. Mude. Eu pago. Vamos ficar juntos.

Ok. Vou mudar. Entao, vou logo resolver umas coisas que preciso. 

Minha mae tinha uma malharia, na epoca, chamada Murano (este parentese so pra dizer que ela era socia da minha boadrasta perfeita). Fui olhar alguma das invencoes magicas que ela fazia com um tecido e, tambem, bater papo. Aproveitei e liguei pra air france pra adiar a passagem. O tempo de espera tava tao absurdo que colocamos o telefone no viva voz. Tres horas depois de muita conversa e risada com a Dona Neyla, ao som de musicas de espera no alto falante – unindo a Mayra a ponto de desistir pelos 300 dolares em meio a crise economica de 2008 – fui atendida e consegui adiar meu voo de domingo para quinta.

Eu, que nunca tive medo de voar, acordei na segunda de manha com flores e cartoes. Ligacoes de jornais e televisao. O voo era mesmo da morte: ele saiu do rio de Janeiro e desapareceu perto de Fernando de Noronha. O aviao explodiu. Todo mundo morreu.

A morte que nao teve em mim, desabrochou em muitas pessoas. O ato de nao ir, me fez viver. O trauma que fica e’ o medo. Medo da morte. Medo de tudo acabar. Medo de quem fica. Medo do esquecimento. Medo do finito. 

Esse medo que me acompanhara pra toda vida tambem chega com pequenas reflexoes amorosas. Ou da omissao. Do nao dizer. Do deixar sempre pra depois no meio do caos capitalista.  

O medo de morrer e nao ter falado tudo o que gostaria. O medo de nunca ter pedido desculpas. O medo de virar po e nao dizer te amo. Do pote ao po, mas do po a vida. 

E se cada voo fosse uma terapia? 

Entao, como num passe freudiano (talvez lacaniano, ne? Pra quem ficou muda desde sempre); minha eureka pessoal, no 25 de abril de 2022, foi – antes de cada voo: e se cair? Vou enterrar junto comigo a lembranca de momentos lindos que eu nunca comentei com ninguem. 

E se cair? nunca falei daquela magoa mais profunda por algumas pessoas. E morrer? E’ isso? Um monte de magoas nao ditas, pensamentos incabados, reflexoes de blocos de notas? Morrer vai ser uma trajetoria sem final, um livro sem titulo, um poema sem rima?

No Londres-Berlin, alguma coisa pulsou em mim. Uma das coisas nao ditas ou, provavelmente, de relacionamentos em pausa, com traumas, sem fala. Uma irma nao do mesmo pai, uma das melhores amigas da juventude. Um dos meus amores da vida. 

Melhores amigas desde crianca, cada uma foi tracando seu caminho. Depois de viver acontecimentos chocantes, como descobrir juntas, adolescentes, na UNIMED, que estavamos gravidas (com direito a medica celebrando e as duas chorando de desespero no meio da sala da espera) 

Vinculo de familia, vida e de cagada. So nos sabemos. 

Entre o dito e o nao dito; pensei nas magoas, mas tambem nas alegrias. Pensei nos silencios. Nos gritos sem sentido.

Nas palavras em vao. Palavras sem vao. Pensei muito no que ficou dentro. No que ta guardado (pra onde vai o guardado depois da morte?)

Os entimentos guardados pra dentro, desnecessariamente, me fazem morrer aos poucos por nao dizer.

Diferente de uma queda brusca de aviao.